Lembranças à Lívia Natália

de Calila das Mercês e Raquel Galvão

Minha negritude caminha nos sobejos,
nos opacos por onde sua luz não anda,
e a linha se impõe poderosa,
oprimindo minha alma negra,
crespa de dobras.
(NegridianosLívia Natália)

Em janeiro de 2016 – quatro meses atrás – acompanhamos pelas redes atitudes de total violência e desrespeito com a poeta e escritora da Bahia Lívia Natália. Na ocasião, aguardamos. Esperávamos que depois da violência da retirada, o outdoor com o poema “Quadrilha” fosse colocado de volta nas ruas de Ilhéus-BA. A Universidade Federal da Bahia, instituição na qual Lívia realiza um trabalho marcante de pesquisa na área de literatura negra e feminina, repudiou a censura à liberdade de expressão. Os sites noticiaram e houve muita repercussão virtual: “Poesia que aborda assassinatos praticados por PMs é censurada em Ilhéus” (Suíça Baiana), “Tentar silenciar a minha voz é um ato ILEGAL’, diz autora de poema que gerou polêmica na PM” (Bahia Notícias), POEMA DE LIVIA NATÁLIA é censurado pelo governo após repercussão (Bahia Já), A gente não suporta chacina. A gente quer poesia, justiça e liberdade (Artigo de Cidinha da Silva na Revista Fórum), Lívia Natália (Modo de Usar), Escritora diz ter sofrido ‘censura’ em poema sobre morte de negro pela PM (G1), etc.

Observamos a violência e, quatro meses depois, não achamos tarde para sinalizar. Não vimos por parte do Governo (apoiador e, por ironia do destino, algoz do projeto – e da violência com os jovens do bairro Cabula) qualquer mobilização de enfrentamento diante da injustiça com a poeta. Ao que parece, nada foi feito. Mas pelo nosso olhar algumas coisas mudaram sim. Estamos em luta, mais do que nunca. E Lívia Natália e a sua arte verdadeira nos representa.

Para Lívia Natália, a nossa lembrança. Vamos reafirmar o repúdio do que já é naturalmente repudiável: a violência. Foi arrancando o teu poema do mastro da liberdade que ele foi mais difundido. E os jovens do Cabula lembrados. Os mortos do Carandirú. Amarildo! Continuamos em luta e compactuamos com sua sempre atual nota de escurecimento! De violência em violência, de opressão em opressão, como canta Larissa Luz no Cd que foi também dedicado a você, “Território conquistado / É espaço garantido!”

Para Lívia Natália, o nosso não esquecimento. Nessa conexão também poética, também crespa, também mulher. Nos caminhos de pedra, sabemos, Lívia, é você que nos vê. E nos escreve, afetivamente, nos descoloniza, diariamente, nos guia: via letras e mãos – negras.

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Um comentário sobre “Lembranças à Lívia Natália

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