Agora é que são (d)elas?: Uma retrospectiva de 2015

Há alguns meses, no meio do movimento #agoraéquesãoelas, começamos a escrever um texto sobre a “doação” do espaço das colunas dos principais jornais do Brasil para as escritoras mulheres. Como a ação tornou-se nebulosa demais, por conta de troca de influências, favores, foco no eixo Rio-SP (só para variar), decidimos engavetar o texto. Movimentos complexos! Contudo, a primeira questão que nós tocamos no não publicado texto foi essa espécie de migalha que foi concedida para as amigas escritoras pelos amigos colunistas durante apenas uma semana. E a questão que nos ronda é até quando vão nos negar as migalhas. Por que parte dos homens, que nos seus gestos de escritores e editores bons samaritanos envolvidos no projeto-hashtag, não lutam pelo espaço das mulheres como colegas colunistas contratadas dos grandes jornais? Até quando mulher será somente um souvenir que alimenta o ego de alguns homens? Quando parte dos homens se manifestarão lado a lado com suas colegas, amigas, irmãs, companheiras pela falta de visibilidade feminina? Cadê os textos, os gritos nas ruas, além de selfies e hashtags? Deixaremos todos os anos somente para o dia 8 de março? (Vide também aos espetáculos televisivos de jornais diários com seus auto-Guinness. “Duas mulheres na bancada pela primeira vez na história do Jornal…”)

Óbvio que não estamos querendo generalizar. Mas alguns processos que acompanhamos aqui na Bahia, no meio literário durante o último ano, ao invés de agregar, querem calar as mulheres. Trata-se de uma falsa inclusão. O escritor premiado é sempre mais importante que a escritora também premiada. Na Feira Literária de Cachoeira, espaço que deveria presar pela diversidade, são homens em sua maioria que realizam a mediação das mesas e nesse “trabalho” ainda querem reduzir a mulher a uma escrita delicada e feminina. Pelos indícios, a intolerância com a mulher escritora continua presente nos espaços literários.

Aquela que ousa quebrar essa barreira da submissão – e que nunca vai apresentar a história em público por temer ser banida de projetos e trabalhos futuros –  tende a ser ridicularizada, feitichizada, promovida a “devassa” ou coisa pior. Às vezes, é boicotada e eliminada de eventos como uma espécie de “castigo” em grupos literatos. Já é hora de dizer um basta e seguir adiante!

Em 2015 vimos também algumas iniciativas inteligentes no sentido de agregar e dar mais visibilidade e respeito às mulheres como um todo. Alguns projetos, ações, eventos, manifestos, como a Marcha das Mulheres Negras em Brasília, o ciclo de debates promovidos na Universidade Federal da Bahia pela Prof. Luciene Azevedo com textos de crítica literária escritos por mulheres e o posicionamento de Elvira Vigna, que ao receber o segundo lugar do Prêmio Oceano e virar manchete em vários sites por só ter o seu trabalho reconhecido depois de tantos anos escevendo, registrou que “só mulher envelhece. Chico, Milton Hatoun, eles não são veteranos. São só escritores.”. Essas ações pontuais e marcantes demonstram uma firmeza nos debates que questionam o status quo que sempre nos foi imposto.

Mulheres, continuidades: podemos dizer ou não ou até mesmo falar por nós. Silenciar agora é um direto e uma escolha! 2015 foi um ano de crises, podemos assim dizer. Crise política, econômica, mas, sobretudo, vimos instaurar também crise social e em uma das nuances desta crise podemos destacar a luta das mulheres. Sim, está incomodando e muito! Vimos a Anna Muylaert ser desrespeitada no campo do cinema, vimos algumas escritoras em debates literários sendo humilhadas por suas posições políticas, assistimos um vídeo que tratou com humor o trabalho sério de uma escritora  (reduzindo via sensasionalismo barato, tal qual fizeram com Hilda Hilst), etc. etc. etc.

Temos consciência que nessa discussão somos minoria. Mas o que queremos sinalizar é que a nossa abordagem não é antagônica aos escritores do sexo masculino, mas trata-se de luta por uma transformação social. Nossa fome é de respeito aos direitos humanos e aos direitos das mulheres. 2015 cintilou muita intolerância. E em 2016? O que queremos enquanto mulheres escritoras? Por onde começar?

Lutar por visibilidade. Lutar por espaços igualitários. Lutar por nós. Por nossas tantas vozes que tentam diminuir. Tantas mulheres de diferentes partes da Bahia aqui, juntas pelos mesmos motivos. Pela arte. Pela literatura. Pelo respeito. Pela dignidade de andar por aí e falar. Sim, queremos falar através da nossa arte. (Que pode agradar ou não!) O Projeto Escritoras da Bahia seguirá em 2016 com a mesma esperança de quando o escrevemos em janeiro de 2014. Apesar das barreiras burocráticas e apropriações de ideias que o sistema político nos prepara, continuamos!

A tod@s, parceir@s, amig@s, nossas escritoras, o nosso muito obrigada! Gratidão. Gostaríamos de agradecer pela confiança, pelo respeito em nos acolher e nos deixar envolver neste campo tão vasto e ao mesmo tempo tão desafiador. Queremos desejar a tod@s um 2016 de muita paz, amor (muito amor!), serenidade e sabedoria. Que possamos ser sempre mais! Sem medo, quebrando as redomas de vidro na qual ainda querem nos colocar. Acreditamos na luta que está acontecendo e nas conquistas que estão por vir: mais respeito, mais amor, redefinições e recomeços!

ANONOVO.ESCRITORAS

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