Proporção de escritoras mulheres na Flica aumenta em 2016

Na edição da Festa Literária de Cachoeira de 2015, o Escritoras da Bahia diagnosticou que, mesmo em minoria, as escritoras foram destaque nas mesas temáticas que aconteceram nesse importante evento literário da Bahia. Surpreendendo a nossa reflexão, em 2016, a situação foi inversa. Finalmente, a participação das mulheres da Flica, proporcionalmente ao número de homens, foi a maior de todos os tempos.

Como escritoras participantes das mesas da programação principal, nove (9) mulheres escritoras estiveram presentes no evento, enquanto o número de homens foi de sete (7). Na mediação das mesas, seis (6) foi o número de mulheres mediando, o dobro do número de homens: três (3).

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Clarissa Macedo, escritora que participou da mesa Versos Diversos na Flica de 2015, junto com a escritora Rita Santana, acredita ser imprescindível se posicionar a respeito de uma literatura realizada por mulheres: “A mesa que eu participei no ano passado foi mediada por um homem e fico feliz em perceber o aumento da participação das mulheres em 2016. Acredito que a questão não é tirar o homem do centro, mas ter consciência dos abismos históricos do homem e da mulher na arte e, conscientes dessas diferenças, dispor de uma sensibilidade na inclusão das escritoras mulheres nas festas literárias”. É possível que a postura dos organizadores da Festa tenha mudado depois de uma série de protestos que aconteceu no pré-lançamento da festa literária de 2016: uma mesa sobre empoderamento feminino composta apenas por homens.

Vale destacar que, apesar da maior participação de mulheres, a Flica de 2016 teve o número de mesas de debate sobre literatura reduzidas em 30% em relação ao último ano, assim como o número de escritores participantes, 40% a menos em 2016. Para uma melhor visualização, apesar do aumento proporcional do número de mulheres, destacamos que em 2015 foram 11 (onze) mulheres participando dos debates e em 2016 apenas 9 (nove). Houve, então, aumento comparativo em relação aos homens escritores, mas, na prática, uma diminuição do número total de participantes.

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Lembranças à Lívia Natália

de Calila das Mercês e Raquel Galvão

Minha negritude caminha nos sobejos,
nos opacos por onde sua luz não anda,
e a linha se impõe poderosa,
oprimindo minha alma negra,
crespa de dobras.
(NegridianosLívia Natália)

Em janeiro de 2016 – quatro meses atrás – acompanhamos pelas redes atitudes de total violência e desrespeito com a poeta e escritora da Bahia Lívia Natália. Na ocasião, aguardamos. Esperávamos que depois da violência da retirada, o outdoor com o poema “Quadrilha” fosse colocado de volta nas ruas de Ilhéus-BA. A Universidade Federal da Bahia, instituição na qual Lívia realiza um trabalho marcante de pesquisa na área de literatura negra e feminina, repudiou a censura à liberdade de expressão. Os sites noticiaram e houve muita repercussão virtual: “Poesia que aborda assassinatos praticados por PMs é censurada em Ilhéus” (Suíça Baiana), “Tentar silenciar a minha voz é um ato ILEGAL’, diz autora de poema que gerou polêmica na PM” (Bahia Notícias), POEMA DE LIVIA NATÁLIA é censurado pelo governo após repercussão (Bahia Já), A gente não suporta chacina. A gente quer poesia, justiça e liberdade (Artigo de Cidinha da Silva na Revista Fórum), Lívia Natália (Modo de Usar), Escritora diz ter sofrido ‘censura’ em poema sobre morte de negro pela PM (G1), etc.

Observamos a violência e, quatro meses depois, não achamos tarde para sinalizar. Não vimos por parte do Governo (apoiador e, por ironia do destino, algoz do projeto – e da violência com os jovens do bairro Cabula) qualquer mobilização de enfrentamento diante da injustiça com a poeta. Ao que parece, nada foi feito. Mas pelo nosso olhar algumas coisas mudaram sim. Estamos em luta, mais do que nunca. E Lívia Natália e a sua arte verdadeira nos representa.

Para Lívia Natália, a nossa lembrança. Vamos reafirmar o repúdio do que já é naturalmente repudiável: a violência. Foi arrancando o teu poema do mastro da liberdade que ele foi mais difundido. E os jovens do Cabula lembrados. Os mortos do Carandirú. Amarildo! Continuamos em luta e compactuamos com sua sempre atual nota de escurecimento! De violência em violência, de opressão em opressão, como canta Larissa Luz no Cd que foi também dedicado a você, “Território conquistado / É espaço garantido!”

Para Lívia Natália, o nosso não esquecimento. Nessa conexão também poética, também crespa, também mulher. Nos caminhos de pedra, sabemos, Lívia, é você que nos vê. E nos escreve, afetivamente, nos descoloniza, diariamente, nos guia: via letras e mãos – negras.

Agora é que são (d)elas?: Uma retrospectiva de 2015

Há alguns meses, no meio do movimento #agoraéquesãoelas, começamos a escrever um texto sobre a “doação” do espaço das colunas dos principais jornais do Brasil para as escritoras mulheres. Como a ação tornou-se nebulosa demais, por conta de troca de influências, favores, foco no eixo Rio-SP (só para variar), decidimos engavetar o texto. Movimentos complexos! Contudo, a primeira questão que nós tocamos no não publicado texto foi essa espécie de migalha que foi concedida para as amigas escritoras pelos amigos colunistas durante apenas uma semana. E a questão que nos ronda é até quando vão nos negar as migalhas. Por que parte dos homens, que nos seus gestos de escritores e editores bons samaritanos envolvidos no projeto-hashtag, não lutam pelo espaço das mulheres como colegas colunistas contratadas dos grandes jornais? Até quando mulher será somente um souvenir que alimenta o ego de alguns homens? Quando parte dos homens se manifestarão lado a lado com suas colegas, amigas, irmãs, companheiras pela falta de visibilidade feminina? Cadê os textos, os gritos nas ruas, além de selfies e hashtags? Deixaremos todos os anos somente para o dia 8 de março? (Vide também aos espetáculos televisivos de jornais diários com seus auto-Guinness. “Duas mulheres na bancada pela primeira vez na história do Jornal…”)

Óbvio que não estamos querendo generalizar. Mas alguns processos que acompanhamos aqui na Bahia, no meio literário durante o último ano, ao invés de agregar, querem calar as mulheres. Trata-se de uma falsa inclusão. O escritor premiado é sempre mais importante que a escritora também premiada. Na Feira Literária de Cachoeira, espaço que deveria presar pela diversidade, são homens em sua maioria que realizam a mediação das mesas e nesse “trabalho” ainda querem reduzir a mulher a uma escrita delicada e feminina. Pelos indícios, a intolerância com a mulher escritora continua presente nos espaços literários.

Aquela que ousa quebrar essa barreira da submissão – e que nunca vai apresentar a história em público por temer ser banida de projetos e trabalhos futuros –  tende a ser ridicularizada, feitichizada, promovida a “devassa” ou coisa pior. Às vezes, é boicotada e eliminada de eventos como uma espécie de “castigo” em grupos literatos. Já é hora de dizer um basta e seguir adiante!

Em 2015 vimos também algumas iniciativas inteligentes no sentido de agregar e dar mais visibilidade e respeito às mulheres como um todo. Alguns projetos, ações, eventos, manifestos, como a Marcha das Mulheres Negras em Brasília, o ciclo de debates promovidos na Universidade Federal da Bahia pela Prof. Luciene Azevedo com textos de crítica literária escritos por mulheres e o posicionamento de Elvira Vigna, que ao receber o segundo lugar do Prêmio Oceano e virar manchete em vários sites por só ter o seu trabalho reconhecido depois de tantos anos escevendo, registrou que “só mulher envelhece. Chico, Milton Hatoun, eles não são veteranos. São só escritores.”. Essas ações pontuais e marcantes demonstram uma firmeza nos debates que questionam o status quo que sempre nos foi imposto.

Mulheres, continuidades: podemos dizer ou não ou até mesmo falar por nós. Silenciar agora é um direto e uma escolha! 2015 foi um ano de crises, podemos assim dizer. Crise política, econômica, mas, sobretudo, vimos instaurar também crise social e em uma das nuances desta crise podemos destacar a luta das mulheres. Sim, está incomodando e muito! Vimos a Anna Muylaert ser desrespeitada no campo do cinema, vimos algumas escritoras em debates literários sendo humilhadas por suas posições políticas, assistimos um vídeo que tratou com humor o trabalho sério de uma escritora  (reduzindo via sensasionalismo barato, tal qual fizeram com Hilda Hilst), etc. etc. etc.

Temos consciência que nessa discussão somos minoria. Mas o que queremos sinalizar é que a nossa abordagem não é antagônica aos escritores do sexo masculino, mas trata-se de luta por uma transformação social. Nossa fome é de respeito aos direitos humanos e aos direitos das mulheres. 2015 cintilou muita intolerância. E em 2016? O que queremos enquanto mulheres escritoras? Por onde começar?

Lutar por visibilidade. Lutar por espaços igualitários. Lutar por nós. Por nossas tantas vozes que tentam diminuir. Tantas mulheres de diferentes partes da Bahia aqui, juntas pelos mesmos motivos. Pela arte. Pela literatura. Pelo respeito. Pela dignidade de andar por aí e falar. Sim, queremos falar através da nossa arte. (Que pode agradar ou não!) O Projeto Escritoras da Bahia seguirá em 2016 com a mesma esperança de quando o escrevemos em janeiro de 2014. Apesar das barreiras burocráticas e apropriações de ideias que o sistema político nos prepara, continuamos!

A tod@s, parceir@s, amig@s, nossas escritoras, o nosso muito obrigada! Gratidão. Gostaríamos de agradecer pela confiança, pelo respeito em nos acolher e nos deixar envolver neste campo tão vasto e ao mesmo tempo tão desafiador. Queremos desejar a tod@s um 2016 de muita paz, amor (muito amor!), serenidade e sabedoria. Que possamos ser sempre mais! Sem medo, quebrando as redomas de vidro na qual ainda querem nos colocar. Acreditamos na luta que está acontecendo e nas conquistas que estão por vir: mais respeito, mais amor, redefinições e recomeços!

ANONOVO.ESCRITORAS

Em minoria, escritoras foram destaque na Flica 2015

Literatura como resistência, a escrita como representação do nosso local de fala: a equipe Escritoras da Bahia esteve, no último final de semana, em um dos eventos literários da Bahia, a Flica. Realizada na cidade de Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, na edição de 2015 estiveram presentes nos debates autoras que fazem parte da pesquisa Escritoras da Bahia: Clarissa Macedo e Rita Santana, no painel Versos, Diversos. E Lívia Natália, poeta, que dividiu a cena com a escritora afro-americana Sapphire, na mesa Em trânsito.

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Mesa: Em Trânsito

Na programação oficial do evento, cuja edição homenageou o escritor baiano Antônio Torres,  a participação das mulheres, em números, foi desigual: em um universo de 26 convidados, foram 15 autores e 11 autoras. Das 13 mesas propostas no evento, apenas 1UMA! – foi mediada por uma mulher: a pesquisadora Maria Anória de Jesus Oliveira, professora da Uneb e pós-doutora em Letras pela UFMG, que mediou a mesa Diálogos.

Apesar da dissonância em números, que perpetua uma história de protagonismo masculino tradicionalmente na literatura,  nos espaços nos quais estiveram, as escritoras expressaram com ênfase a importância e a força das mulheres enquanto criadoras de seu tempo. E, apesar do domínio da “ideologia masculina”, o momento atual é de evidenciar as vozes que historicamente foram silenciadas. A das escritoras mulheres é uma delas.

Destacamos as notícias “Rita Santana e Clarissa Macedo falam da produção poética como instrumento de resistência e rebeldia” (site oficial da Flica), ‘A exclusão é estúpida’, diz poeta sobre inclusão na mulher na literatura (Portal G1), “Em debate na Flica, Livia Natália diz: ‘Eu digo como quero ser representada’” (Portal G1). Os vídeos dos debates na íntegra podem ser acessados no canal do site ibahia no Youtube. Desde já podemos dizer que vale MUITO a pena ver.

Nos sentimos representadas por Clarissa, Rita e Lívia Natália (e Sappire) que de forma única e corajosa falaram sobre as dificuldades e os preconceitos pelos quais as mulheres escritoras em 2015 ainda passam.  Agradecemos muito às escritoras por evidenciarem as vozes de todas as mulheres da literatura, que historicamente estão emudecidas pelos pensamentos dominantes. E nesse embate, o trabalho delicado com a verdade, através da poesia de resistência, de denúncia e de não submissão será, certamente, a nossa principal, colorida e visceral armadura.

IMG_2939Clarissa Macedo, Calila das Mercês e Rita Santana

Texto de Calila das Mercês e Raquel Galvão

TOP 3 – Leituras da Semana

Desafios-7

1 – “Era linda, culta, desejada, sedutora e tinha uma mira admirável com as palavras”. Sobre Hilda Hilst, informe-se!, um texto leve, informativo e romântico escrito por Zélia Duncan para O Globo, a artista apresenta Hilda Hilst através do seu olhar e das suas experiências como apreciadora da eterna dona da Casa do Sol.

2 – No Suplemento Pernambuco o texto O mercado editorial e as escritoras de Catherine Nichols, traduzido por Carolina Morais, traz os caminhos de aceitação e rejeição que percorre uma escritora quando se passa por um escritor: “Homme de Plume: O que aprendi quando deixei de ser escritora e me tornei um escritor”.

3 – O dia em que a casa foi expulsa de casa  traz a história de Antônia Melo, a maior liderança popular do Xingu, que foi arrancada do seu lugar, da sua casa, por causa do projeto da hidrelétrica de Belo Monte, segundo o texto de Eliane Brum para o El País, “a obra mais brutal – e ainda impune – da redemocratização do Brasil”.

TOP 3 – Leituras da Semana

Sobre mulheres e mais. 

1 – A filósofa Judith Butler esteve pela primeira vez em Salvador no Seminário ‘Desfazendo Gênero’ – realizado entre os dias 4 e 7 de setembro no Teatro Castro Alves. Os debates giraram em torno de temas ligados à sexualidade e ao gênero. Indicamos a entrevista feita pelo jornalista Eron Rezende para a Revista Muito. Confira Abre Aspas com Judith Butler.

2 – O conto Bloodchild, da autora norte-americana Octavia Butler, oferece reflexões e questionamentos sobre a experiência dos excluídos do mundo. Em um texto  experimental contemporâneo, ela possibilita através da ficção científica o encontro com o outro e a celebração da diferença para a construção de novos mundos possíveis. Confira o artigo Produção de mundo e experimentação política: uma análise do conto Bloodchild, de Octavia Butler escrito pelo jornalista e doutorando em Comunicação e Cultura, Carlos Calenti para a Revista LitCult.

3 – Anna Muylaert, autora do filme “Que horas ela volta?” escolhido pelo Ministério da Cultura como representante do Brasil no Oscar 2016, fala sobre repercussão do filme e sobre o caminho para o protagonismo das mulheres. Recentemente, em Recife, em um debate sobre o filme, a diretora enfrentou um “show de machismo” protagonizado pelos diretores Cláudio Assis e Lírio Ferreira. Saiba mais lendo a entrevista  ‘Mulher que faz sucesso é entendida como perigosa’, diz Anna Muylaert feita por Letícia Mendes.

Desafios-6

Entre tramas e tessituras literárias

Oriundo da mente fértil de duas transeuntes apaixonadas pela arte em geral, especialmente a literatura, o projeto “Escritoras Mulheres da Bahia” traz um ineditismo ao cenário cultural estadual e nacional. A realização dele busca trazer à baila a produção literária das mulheres baianas que, através de suas tramas e tessituras, têm contribuído para a construção e divulgação da literatura baiana.

Pois as mulheres, embora tenham conseguido várias conquistas ao longo dos tempos, ainda não recebem o seu devido espaço em meio à sociedade. E no campo das artes esse “anonimato”, infelizmente, ainda existe. Por isso, esse projeto abre espaço para todas as mulheres que, como Penélope, de Homero; ou a moça tecelã, de Marina Colasanti, tecem e destecem histórias que enredam seus leitores em prosa ou poesia, na forma oral ou escrita.

Algumas das mulheres que compõem o mosaico desse projeto são vencedoras de prêmios literários ou editais de financiamento à produção literária como, por exemplo, Állex Leilla, Daniela Galdino, Adelice Souza, etc; outras ainda estão galgando seu espaço no cenário cultural. Mas todas, com suas técnicas e inspirações, tramam enredos que versam sobre as mais diversas temáticas e estilos literários.

Na ficção dessas mulheres, encontramos os mais diversos personagens. Na prosa, uns são vingativos, outros se martirizam na busca de entender sua própria essência. Na poesia, há momentos de erotismo nos quais as palavras ardem como fogo que não se ver; em outros, a rotina abre espaço para a singeleza e a beleza da transformação da borboleta.

Aqui, as palavras são poucas para abarcar a composição e a apreciação de toda a produção dessas mulheres. É apenas um aperitivo, um convite a viajar pelas linhas e entrelinhas, os encontros e desencontros, os medos, os anseios, as angústias, e as alegrias que nos são oferecidas por nossas autoras.

Como colaborador desse projeto, tem sido uma lisonja conhecer essas artistas e um pouco da produção literária delas, reconhecendo sua importância e contribuindo para a divulgação desses trabalhos nas mais diversas mídias.  Em meio aos laços e enlaces que envolvem esse trabalho, posso dizer que: “Escritoras Mulheres da Bahia” é uma verdadeira vassalagem a essas damas da literatura.

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